A desastrada

Criado por Narrador
rio

A manhã estava cinzenta e nebulosa. Atravessámos uma pequena aldeia de carro. A certa altura, tivemos mesmo de acender os faróis. Passado pouco tempo, chegámos a uma pequena floresta que atravessámos tranquilamente, quando, de repente, a avó exclamou: “Olhem, há qualquer coisa no meio da estrada!” Imediatamente diminuímos a velocidade.

“O que será?” perguntou a Ester, a nossa filha mais velha, estendendo a cabeça para fora. Ao chegarmos a cerca de cinco metros daquela forma escura, vimo-la, de repente, saltar para a berma. Era uma gralha pequena, que, provavelmente teria caído do ninho.

Quando parei e desci, pude agarrar o pássaro preto, sem dificuldade, e trazê-lo até ao carro. A mãe e a avó contemplavam com desconfiança a gralha com o seu bico adunco. As crianças também estavam aliviadas pelo facto de o pássaro se encontrar do lado de lá do vidro da janela.

“Temos de soltar a ave na relva”, disse a mãe, que estava com medo que o pai levasse o animal para casa. Era mesmo essa a minha intenção. Gerou-se uma viva discussão. A mãe e a avó não queriam ouvir falar em tal, ao passo que eu e as crianças nos entusiasmávamos com a ideia. Quando as duas senhoras notaram o quanto estávamos alegres por causa da gralha, transigiram finalmente, ainda que um pouco contrafeitas. Pus o pássaro no tejadilho, e continuámos viagem.

Nos primeiros dias, a gralha não era capaz de comer; tinha de se lhe meter tudo pelo bico abaixo. Como tivéssemos de nos ausentar durante alguns dias, pedi a uma senhora, grande amiga de pássaros, que cuidasse do bicho. Esta assentiu imediatamente.

Quando voltámos, alguns dias mais tarde, as crianças pediram logo que fosse buscar a gralha e a trouxesse para casa. A ave estava satisfeita e de boa saúde. Reinou grande alegria entre as meninas, quando apareci com a gralha. Entretanto, tinha comprado um pouco de carne no talho, e fui dar-lhe a comer. A Ester perguntava com curiosidade: “Como é que vais fazer?” Todos estavam interessados em ver a ave comer. Tirei a gralha da gaiola, e segurei-a, com mão firme, de maneira que ela não pudesse esvoaçar. Com a outra mão, ia-lhe dando a comida. Com o indicador, empurrava-a pelo bico abaixo. Quando o pedaço lhe chegava à garganta, a gralha engolia com dificuldade. Dava-lhe pouco de cada vez, mas frequentemente.

“Que nome havemos de pôr à gralha?” perguntaram as crianças. Reuniu-se o conselho! Mas nenhuma proposta foi aceite. De repente, ocorreu-me que, quando o pássaro tinha deixado cair um pedaço de comida, a Ester tinha exclamado: “Tu és uma desastrada!” “Que dizem de Desastrada’?,” perguntei eu. Todos concordaram. A Desastrada foi-se tornando, de dia para dia, mais viva e forte. Ao mesmo tempo, o apetite ia-lhe aumentando. O que nos incomodava, era que o bicho era tudo menos asseado. Por isso, um dia, metemo-lo, sem rodeios, na banheira, pusemos Shampoo e, em breve, a ave preta se transformou num brilhante pássaro de espuma. Enxaguámo-la rapidamente. Tínhamos agora à nossa frente uma desastrada, como que despida, com ares de cão molhado. Secámos-lhe a plumagem com o secador do cabelo. Parecia um pássaro novo, ainda por cima todo perfumado do banho. A mãe abanava a cabeça perante esta sessão, mas as crianças estavam todas orgulhosas da sua gralha limpinha.

Fizemos uma casota com um caixote, e nela a Desastrada podia saltar de um poleiro para o outro. Passados alguns dias, instalámos a casa da Desastrada no jardim. Parecia que ela estava contente com isso. Ali havia tanta coisa que ela podia comer sozinha! Ainda hoje, os pratos favoritos deis, são cascas da queijo e tomates. Quando a deixávamos ir passear, ela soltava o seu “croac” rouco. Não demorou muito até que empreendesse as primeiras tentativas de voar. Muitas vezes perdia o equilíbrio. As crianças rebolavam-se a rir, ao verem-na realizar toda a espécie de habilidades, nas suas tentativas de aterragem. No verão, deu provas de ser uma grande exterminadora de toda a espécie de bicharada. À volta da casota, pusemos uma gaiola flutuante, de rede, que pareceu agradar-lhe muito. Grande foi o seu espanto, ao ver, certa manhã, a casa e a gaiola completamente cobertas de neve. A princípio, pôs-se a tentar comer a neve, mas em breve descobriu que era mais divertido tomar banho nela. Os seus gritos soavam cada vez mais roucos. Com grande pompa, ela cumprimenta-nos e faz troça de nós. De vez em quando, recebe a visita dos seus companheiros de raça. Mas a Desastrada também fica bem contente quando os pardais, abelheiros ou tentilhões, se aventuram até às imediações da sua janela, provavelmente para apanharem um pouco da comida dela.

A Desastrada tornou-se uma amiga querida tanto de velhos como de novos.

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