A estranha cama do Joãozinho

Criado por Narrador
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O avô linha levado a avó e os gémeos para um longo passeio. O dia estava cheio de sol radioso. A manhã tinha sido um tanto fresca, mas agora eles estavam todos sentados, um pouco afastados da estrada, num local tranquilo. Hoje a comida tinha um sabor especial. É que a avó, que era mestra no assunto, tinha preparado magníficas provisões de viagem. A velocidade com que tudo desapareceu, foi a melhor prova disso.

Depois de comer, as duas crianças puseram-se a correr, alegremente, à volta de um salgueiro. Depois de se acalmarem um pouco, a Mirta e o Joãozinho sentaram-se de novo em cima da coberta que a avó tinha desdobrado. Então começaram a dizer qualquer coisa ao ouvido um do outro. O Joãozinho virou-se para a avó: “Podias contar-nos uma história?” A avó sorriu e disse: “Ainda é muito cedo para vos contar uma história para irem dormir!”

“Ó avó!” replicou o Joãozinho, “nós podíamos ficar a ouvir-te o dia inteiro.”

A avó começou: “Ao ver os cavalos, ao longe, naquela pastagem, lembro-me de qualquer coisa que aconteceu há muitos anos.”

“Então deve ser uma história de cavalos” exclamou o Joãozinho entusiasmado.

“Sim, Joãozinho, a nossa história trata de dois cavalos. Chamavam-se Malhado e Branquinho. Outrora não havia tractores nem arados modernos As pessoas nem sequer sonhavam ainda com essas coisas. Podem calcular quanto tempo era necessário para que um homem arasse a terra de um campo do tamanho desse prado.

Naquele tempo, só havia pequenos arados manuais. O homem tinha de caminhar atrás do arado, conduzindo-o, enquanto abria os regos, com o auxílio de um ou dois cavalos. Os sulcos tinham de ser o mais direito possível. Isso era importante. Por isso, o camponês punha, nas duas extremidades do campo, uma estaca com um pano atado, a fim de poder manter sempre a direcção certa.

O Malhado e o Branquinho eram cavalos que o camponês tinha em grande estima. Um dia, o camponês arava um campo muito perto da quinta. Assim pensou que o filhito, que também se chamava Joãozinho como tu, podia ir com ele. O pequeno, que tinha naquela altura quatro anos, não precisou que lho dissessem duas vezes.

A mãe dele andava muito ocupada porque tinha ainda duas meninas, mais novas que o Joãozinho. Tinha de cuidar delas, por isso ficava contente quando o Joãozinho podia ir com o pai, ficando assim em boas mãos.

Os dois cavalos estavam preparados em frente do grande portão. Quando o Joãozinho saltou lá para cima, o pai sentou-o em cima do cavalo branquinho. O pai montou no malhado. E assim saíram para o campo, para lavrar.

O Joãozinho saltitava, nos sulcos, atrás do pai. Assim aconteceu durante um bom bocado. Mas pouco a pouco, as pernitas do Joãozinho foram ficando cansadas. Cada vez ele ia ficando mais para trás, enquanto o pai ia com os cavalos de um lado para o outro. Finalmente, o pequeno foi para a sombra de uma árvore e pôs-se a brincar. Quando o pai chegou quase â extremidade do campo onde tinha deixado o pequeno, reparou que ele já lá não estava. Pensou que ele se tinha cansado e que teria voltado para casa, a qual não ficava longe. No mesmo instante, o Branquinho, que comia nos sulcos, parou subitamente.

Não havia nada que o fizesse continuar. Como nenhuma ordem dava resultado, o pai foi ter com o cavalo e quis empurrá-lo. “E por que é que pensam que o Branquinho se recusava a andar?”, perguntou a avó. As crianças indagaram ao mesmo tempo: “O Joãozinho estava no rego?”

“Estava, estava”, respondeu a avó. “Dormia, todo tranquilo. Depois de se ter cansado de brincar sozinho, tinha tentado ir ter com o pai. Foi andando, mas tão ensonado que caiu dentro do sulco e adormeceu.”

“Mas ele podia ter sido pisado e lavrado com a terra”, exclamou o Joãozinho.

“O Branquinho foi um herói!” acresceu a Mirta, pensativamente.

“Ó avó, que linda é esta história! Conheceste o Joãozinho?”

“E de que maneira”, interrompeu o avô. A avó ria de contentamento: “Posso dizer que sim.” Então olhou para o avô que estava apoiado ao tronco da árvore, e disse: “Ali está o João!”

“Avô!” gritaram a Mirta e o Joãozinho juntos. “O nosso próprio avô! Agora a história ainda é mais bonita!”

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