A Gata Borralheira

Criado por Narrador
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Há muito tempo, numa cidade longínqua, vivia um casal que só tinha uma filha, mas muito bonita e muito boa. Num inverno rigoroso a mãe morreu e, desde aquele dia, a vida da menina tornou-se muito triste; além disso, estava quase sempre sozinha, pois o pai era um comerciante rico muitas vezes ausente em viagem por países distantes.
– Sei que estás muito desolada e triste, mas não te preocupes, porque em breve vais ter quem te console e acompanhe – disse-lhe um dia o pai.
Com efeito o comerciante casou de novo, mas agora com uma viúva muito antipática que já tinha duas filhas muito feias e com um coração tão mau como o da mãe.
Aquela mulher sentiu logo uma grande inveja, porque as suas meninas não eram nem tão bonitas nem tão boas e prendadas como a enteada, e por isso as três costumavam maltratá-la, aproveitando o facto de o pai estar ausente.
– Porque é que tens tanta cinza no vestido? Estás tão suja! Vamos chamar-te Gata Borralheira, que é um nome que te assenta muito bem! – disseram-lhe uma tarde as três, rindo-se muito.
Um dia o pregoeiro do Rei anunciou que o Príncipe completara dezoito anos e que o Monarca, para o celebrar, convidava para um baile no Palácio todas as filhas solteiras das famílias nobres e ricas. A madrasta chamou a Gata Borralheira e disse-lhe:
– Vais engomar os vestidos das minhas filhas e limpar-lhes os sapatos, mas tu não vais a esse baile!
Quando a madrasta e as filhas saíram para o Palácio, a Gata Borralheira escondeu-se num canto e começou a chorar amargamente. Era ela que tinha de fazer todos os trabalhos da casa e obrigavam-na a dormir junto da lareira.
De repente uma luz azul encheu a cozinha e a Gata Borralheira viu uma mulher lindíssima e resplandecente.
– Eu sou a tua Fada Madrinha e venho consolar-te, porque tens continuado a ser boa apesar dos sofrimentos. Pede-me o que quiseres, que eu concedo-to.
A Gata Borralheira pensava que estava a sonhar. A Fada, que sabia tudo, disse:
– Gostavas de ir ao baile do Palácio? – Sim, sim…isso é o que eu mais desejo neste mundo! -respondeu a jovem.
Então a Madrinha mandou-a trazer do jardim uma grande cabaça, seis ratos, uma rata e seis lagartixas, que se deixaram apanhar porque era a Fada que mandava. Depois transformou tudo com a sua varinha mágica: a cabaça converteu-se na carruagem mais luxuosa jamais vista; os ratos, em seis cavalos brancos; a rata, num cocheiro todo empertigado e as lagartixas em seis criados com uniformes muito vistosos. A Fada tocou depois com a varinha no vestido sujo da Gata Borralheira e ela ficou adornada com o vestido comprido mais maravilhoso que uma costureira poderia alguma vez imaginar. Por último a varinha pousou nas suas pobres sandálias, que se tornaram em dois sapatinhos de cristal de rara beleza.
– Á meia-noite em ponto terminará o feitiço e tudo será como antes -disse-lhe a Fada ao despedir-se dela.
Quando a Gata Borralheira entrou no salão de baile todos a admiraram pensando que era uma Princesa, e o Príncipe, apaixonado, convidou-a para dançar. Ao vê-los juntos o rei comentou:
-Nunca vi uma jovem tão elegante e tão bonita. Espero que o meu filho se dê conta disso.
O Príncipe não deixou de dançar com ela um só momento. Mas as horas felizes passam muito depressa e as badaladas do relógio do Palácio despertaram a Gata Borralheira daquele sonho maravilhoso: estava a bater a meia-noite! Deixou o Príncipe e correu pelos jardins, tão depressa que perdeu um sapato na escadaria. Quando soou a última badalada o feitiço desapareceu. O Príncipe correu atrás dela, mas só viu uma jovem pobremente vestida a afastar-se. Foi então que encontrou o sapato e guardou-o perto do coração.
-A dona deste sapato de cristal é também a dona do meu coração! -disse o Príncipe ao pai.
– Quero que procurem essa jovem por todo o reino! -ordenou o Rei.
Os emissários reais foram experimentando o sapato a todas as donzelas. E, quando chegou a vez delas, as meias-irmâs da Gata Borralheira fizeram esforços enormes para poderem meter nele os seus grandes pés, mas tudo foi inútil.
– Agora gostava eu de o experimentar! -pediu a Gata Borralheira.
– Tu não vais experimentar NADA! -gritou-lhe a madastra com desprezo.
– Claro que o vai experimentar, minha senhora -exclamou o emissário real. – O Rei ordenou que todas o experimentassem, e todas significa todas.
O pé da Gata Borralheira entrou perfeitamente no sapato de cristal, que parecia feito à sua medida, e a madastra e as filhas choraram de desespero.
Pouco tempo depois a Gata Borralheira e o Príncipe casaram. Nunca houve um casamento tão magnífico! E os apaixonados viveram felizes, durante muitos e muitos anos.

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