A Helena e o Arnaldo

Criado por Narrador
comida-1045

A Helena e o Arnaldo têm uma surpresa. A pequena Helena, de sete anos, lançou impetuosamente a maça mordida, por cima da vedação que dava para o prado. “Não quero saber mais de ti!” Foram as palavras que acompanharam a sua acção. “Estás a falar comigo?” perguntou o irmão de cabelo ruivo, dois anos mais velho. “Não, senhor russo, estava a falar só com a minha maçã!” “Não prestava?” quis saber o Arnaldo. “Não; ela era boa, eu é que já não tinha fome,” retorquiu a irmã, com indiferença.

“Também não comi o meu pão”, observou o Arnaldo, ao se dirigirem ambos para casa. “Deito sempre fora o que sobra. Para que havemos de ir carregados para casa com os restos?” “Não é verdade que os peixes ficaram bem contentes com o pedaço de pão que lhes atirei ontem, da ponte?” acrescentou a Helena divertida. “Apanharam-no com toda a velocidade.”

Em breve chegaram ao portão do jardim onde a mãe estava à espera deles. Esta cumprimentou os filhos com as seguintes palavras: “Estou contente por já estarem a chegar da escola. Venham até à cozinha contar-me como tudo se passou. Ao mesmo tempo, vou fazendo o comer.” A senhora Beller, era esse o seu nome, já tinha notado muitas vezes como os filhos esbanjavam a comida. Muitas vezes isso causava-lhe mágoa. Mas ainda nunca tinha descoberto um plano verdadeiramente bom para poder ajudar os filhos a apreciarem mais o que tinham. A medida que preparava o bom jantar, desenhou-se-lhe nos lábios um sorriso astucioso. Acabava de ter uma boa ideia. Na manhã seguinte, quando a Helena e o Arnaldo se sentaram a mesa, ficaram muito admirados quando viram apenas, além duma travessa, dois pratos rasos com as duas colheres. “Isto é que é o nosso pequeno almoço?” perguntaram as duas crianças, singularmente inquietas.

“Com certeza”, respondeu a mãe, com serenidade. “Esta manhã estamos na Índia. Vocês sabem que há nesse país muitas crianças que não têm quase nada que comer.” “Mas nós não estamos na Índia, mãe”, disse o Arnaldo.

“Vamos fazer de conta que estamos” elucidou a mãe. “para que possamos compreender melhor a miséria em que ali vivem tantos meninos e meninas.”

A mãe deitou as papas de aveia nos pratos. “O que vem a ser esta coisa gordurosa?”

“Papas de aveia”.

“Papas de aveia?”

“Exactamente. Papas de aveia.”

“Onde está a fruta, o pão, a manteiga e o doce?” perguntou de repente a Helena, um pouco desassossegada.

“Hoje não há nada disso, meus filhos.”

Em breve, as duas crianças, perplexas perante o enigma misterioso, se encontravam a caminho da escola. Nunca, até aquele dia, a manhã tinha custado tanto a passar. Finalmente, puderam correr lá para fora, com os outros. Sentaram se imediatamente num banco para lanchar. Abriram os sacos, onde devia estar a refeição que a mãe costumava preparar à terça-feira, porque nesse dia não podiam ir almoçar a casa. Mas lá dentro havia um bilhete curto. Este dizia: “Queridos filhos, hoje ao meio-dia estamos na África, onde não há muito tempo, uma quantidade de crianças morreu de fome. Cumprimentos carinhosos da vossa mãe.” “Só dois montinhos de arroz”, murmurou o Arnaldo, com voz seca. “Só dois”, soou num eco a voz da Helena. Se eu ao menos tivesse a banana e o pão que ontem deitei fora”, gemeu o Arnaldo.

Então as chancas, pensativas, puseram-se a comer o arroz muito devagar, para durar mais tempo.

“A maçã que eu ontem atirei para lá da vedação era maravilhosamente sumarenta e doce como o mel”, observou a Helena.

Às quatro horas, quando a mãe vinha do batatal situado atrás do bosquezinho, viu os filhos de longe. Dirigiam-se para casa, o mais depressa possível. Mais um pouco, e chegavam ao pé da mãe.

“Esta noite, vamos comer um pouco mais tarde, filhos”, anunciou. “Tive muito que fazer, por isso o jantar só estará pronto às sete horas.”

Às sete, não foi preciso ninguém chama-los. Já estavam sentados à mesa, mesmo antes de a mãe trazer a comida. Esta fez de conta que não dava por nada.

O jantar nutritivo desapareceu como se fosse manteiga ao sol, e então reinou um silêncio um tanto embaraçoso.

“Mãe,” disse a Helena quebrando o silêncio, “nunca mais vou deitar fora a comida”.

“Eu também não, mãe”, concordou o Arnaldo com fervor. “A Helena e eu preferimos esvaziar o nosso mealheiro e enviar o dinheiro às crianças pobres da Índia e da Africa. Posso comer mais um pãozinho com manteiga?”

Comentários

um texto narrativo pronto