A lapa

Criado por Narrador
Abalone-Chiton-and-Keyhole-Limpet

Não vale de nada, bater à porta da casa da lapa. Ela comporta-se como se quisesse dizer: “Não estou em casa!” Não se consegue despegar a concha das rochas. Temos que esperar até que ela pense que nos fomos embora.

Quando levanta um pouco a concha, para espreitar cá para fora, podemos meter rapidamente uma faca debaixo dela. Só assim conseguimos soltá-la. Mas estando tão bem agarrada a rocha, chega a trazer agarrados alguns pedacitos dela. A lapa sente orgulho da maneira como se agarra aos rochedos. E tem razão. Quando as ondas se encapelam, arrastando tudo, a lapa mantém-se imóvel. Mesmo depois de uma tempestade ela fica tranquila.

Sabe que está em segurança dentro da sua casa graciosa e alta. Ela faz um buraquinho na rocha. A casinha dela cabe lá dentro. O pé dela, largo e achatado, matem se ali como uma ventosa. Naquele buraquinho da rocha, a lapa constrói a casa.

Não que ela esteia sempre em casa. Quando a maré cheia vem, e a água a oculta, ou na noite escura, ela dá os seus passeios. Deita uma antena para fora da concha, em seguida arrasta o corpo até sair. Ela só possui um pé, mas com ele pode deslizar rapidamente na areia e nos rochedos. Em breve chega junto do tufo de plantas aquáticas, verdes e suculentas. “Que magnifica refeição!” Ela tem filas de dentinhos afiados como agulhas, por cima da língua. Tem mil novecentos e vinte dentes. Imaginem se eles se põem todos a roer. A língua é como uma fita comprida e delgada, e a lapa tem-na toda enrolada. A hora da refeição, deita-a cá para fora e os dentes afiados cortam e rasgam as algas em pedacinhos, que vão alimentar o animal. Essa boa comida faz com que o bicho cresça depressa. A princípio é do tamanho de meia ervilha. A concha ajusta se â sua pequena dimensão. Quando cresce, fica mais ou menos como uma moeda de dois tostões. E como é que ela faz crescer a concha, quando é necessário? Sim, ela é capaz de se fazer maior. Deita um líquido espesso pela pele, e à volta do rebordo da concha.

O líquido endurece e brilha na água, formando um novo circulo à volta da concha. Assim se vai acrescentando anel após anel, e a concha vai crescendo. Muitas vezes, ela fica muito tempo a comer. Amanhece e a maré trá-la de novo. As aves marinhas, esfomeadas, podem avistá-la, e as ávidas estrelas-do-mar esperam pelo petisco. O corpo da lapa forneceria uma refeição macia e boa.

Por isso ela tem de correr para salvar a vida. Fica toda contente ao alcançar de novo os seus rochedos. Então, vai directamente para o buraco. Esses buraquinhos, parecem todos precisamente iguais, mas cada lapa conhece o seu. Encontra sempre o caminho de regresso.

Enrola-se de novo e põe-se debaixo da concha. A concha parece uma casinha chinesa. E tão dura, que nem mesmo o bico forte de um pássaro é capaz de a quebrar ou remover.

Então, durante um certo tempo, a lapa já não espreita para fora da casa. Fica alegre, segura e feliz tá dentro, enquanto as aves aquáticas gritam por cima da sua concha.

Comentários