João Bochechas

Criado por André Filipe Marques
João bochechas

Era dois mil e cinco. O mundo apresentava-se às riscas e as pessoas comunicavam através do amor. As nuvens desfilavam em banda, assemelhando-se a algodão doce de feira.
Era manhã de quinta-feira. O sol queimava a roupa das gentes, as praias enchiam-se de brincadeiras, e os piqueniques eram aos montes. O planeta parecia feliz. Aparentava estar de bem com a vida. E, nessa mesma manhã, algo estremecia num choro estridente, capaz de derrubar o castelo mais forte de todos os reinos. O João Fonseca. De corpo rosadinho e bochehas de abóbora. De mãozinhas frágeis e pernas bambas. O desejo estampado no rosto dos seus pais. O Joãozinho.
O Joãozinho está quase a completar nove anos de vida. Estou um Senhor, diz ele, com a boca cheia de certeza. Já faz franja e usa relógio de pulso. Do Mickey Mouse. Já toma banho sozinho e lava os dentes três vezes por dia. Valente. E só veste e calça aquilo que lhe apetece. Rezingão. Na escola todos os tratam por Cabeçudo. No entanto, é o mais arrebatador de todos os seus colegas de turma. E ainda são mais de uma dezena. Anda sempre de dentes brancos, alguns desalinhados, a condizer com os grandes olhos cor de amêndoa. Herdou da avó Emília. Possui um pequeno vicío; está constantemente a levar o dedo indicador ao nariz pontiagudo. Sábio que é, afirma que serve para expulsar os intrusos redondos. Aqueles pegajosos, feios, e moribundos seres humanos pequeninos.
O Joãozinho é dotado de uma simpatia extrema. Bem educado, devido aos princípios incutidos em casa, detém inúmeros amigos. E aqueles que não são, rapidamente fazem questão de se juntar a ele. Talvez porque apresenta um ar frágil, por vezes enfezadinho.
Da janela da sala de aula, enquanto aguarda pela fantástica hora do recreio, Joãozinho observa, atentamente, algo que o faz tremer da cabeça grande aos pés mirradinhos. E esse algo chama-se Miguel. O vilão maior de todas as escolas da cidade. Ana Margarida, sempre disposta a proteger quem está em apuros, interrompe o terrível silêncio que paira na mente do Joãozinho. Os colegas dizem que ela está apaixonada por ele, e que até já deram um beijinho à saída do portão escolar. Dizem, não há nada confirmado.
– Ele não te vai fazer nada, acredita. Chegou demasiado bem disposto!
Porém, as palavras da amiga de nada servem. E, do outro lado, Miguel cerra os punhos, ao mesmo tempo que fixa o olhar do Joãozinho. De regresso à realidade, quebra o silêncio.
– Eu não tenho medo dele, mas o certo é que acabo sempre por cair à beira dele. E depois ficam todos a pensar que não sou capaz de fazer nada.
A amizade é tramada. E de fácil intuição. A amizade permite falar sem reservas ao amigo todas as qualidades e defeitos. A amizade deve ser sentida, e não realizada com palavras. A felicidade de alguém que nos é próximo, deixa-nos deleitados. Sem mais nada a acrescentar. Caso o contrário suceda, é porque o que existe é apenas afinidade. Ou seja, simples frases ditas sem sentimento algum.
O Miguel é uma criança rebelde. Vive com os avós maternos. É gordinho, usa calças até ao pescoço, e está sempre a mandar bocas foleiras aos colegas para se sentir bem consigo mesmo. O Joãozinho é o seu alvo preferido. Por ser o seu oposto, claramente. Adora molhar-lhe a sopa, ou seja, dar-lhe umas valentes coças bem dadas. E os colegas assistem, de cabeça baixa, preferindo não se meterem para não sofrerem as consequências. Já os colegas do vilão, preferem usar a gargalhada para se sentirem felizes. Estúpidos. Mal sabem eles que mais dia menos dia o Joãozinho vai crescer e tornar-se num grande homem, igual ao seu pai, que tem quase dois metros e cabelo que nunca mais acaba.
A hora do recreio agrada a todos os baixinhos, inclusive aos professores, que assim aproveitam para terem aquelas conversas chatas de adultos, responsabilidades e afins. No pátio, mais propriamente num sitio isolado, Joãozinho prova das boas. Mais uma vez. E desta vez chega mesmo a ficar com um olho negro. Mas, nem mesmo assim consegue revoltar-se ou tomar uma atitude menos conservadora. Prefere chorar num cantinho, junto à amiga de todas as horas, e que por sinal tem nome de flor. Ninguém fala, apenas todos pensam que não querem tornar-se numa pessoa mesquinha como o Miguel. Todos ouvem falar em castigos do céu.
A noite cai. As estrelas habitam o luar. E não há vento. A casa do Joãozinho tem um telhado, e pela primeira vez, decide trepá-lo até lá bem a cima. Sente-se com coragem, e também é uma forma de se afirmar capaz de algo que não seja só de levar pancada quase diariamente. À hora do jantar, esteve mesmo para contar tudo aos seus pais. Toda a malvadez por que tem andado a sofrer desde que o Miguel entrou para a escola. Mas decidiu mentir, apesar de saber que é feio e que em caso algum deve justificar seja o que for. Sabe perfeitamente que a mentira não deve ser sentida, mas, ainda assim, jurou a pés juntos que durante o recreio, tropeçou e bateu com o olho numa pedra. E chorou em silêncio durante todo o jantar. E os pais acreditaram. Coisas de crianças, pensaram.
O telhado é vermelho, igual à paixão que sente pela Ana Margarida. Mas não se acha capaz de lhe dizer o quanto a adora. Apesar de ter a certeza que ela o acha giro. E chora, mais uma vez. Chora porque tem a certeza que ela só está com ele por pena, porque é fraco e tem medo de um matulão gordo e sem graça alguma.
E quando tudo parece perdido, uma estrelinha surgida do nada, decide pousar mesmo à beirinha do Joãozinho. Pasma-se. Acolhe-a com a palma da mão. E a estrelinha nada faz. Brilha de tal forma que quase incendeia os olhos melosos do Joãozinho. E a estrelinha diz qualquer coisa.
– Tenho estado à tua espera. Esperei que viesses aqui, sabia que ias conseguir chegar ao topo. E conseguiste! Estou muito feliz por ti. No entanto, fico triste por saber aquilo por que estás a passar. Tens de te afirmar! Tens de fazer frente àquele gordo malvado e fazer ver-lhe que amar o próximo é muito melhor que praticar o mal.
Os olhos do Joãozinho continuam a brilhar. E a estrelinha sem se calar. A magia acontece quando menos esperamos. Sempre. No final de uma tragédia há sempre um ponto luminoso que nos ensina a caminhar sobre águas serenas e límpidas.
– Amanhã ele vai organizar um jogo de futebol. Ainda não sabes, mas vais ficar a defender a baliza. Quando ele organizar o jogo, convida todos os que forem selecionados a virem a tua casa fazer Éclairs de Limão. Todos vão adorar e vais sentir-te muito melhor por dentro, por saberes que és mais forte e que também sabes ser esperto.
O Joãozinho finalmente decide dar o ar da sua graça.
– Ele vai bater-me à frente de todos, e eu mais uma vez vou ter de ficar calado e fingir que está tudo bem. Estou farto!
– Faz o que te estou a dizer. Faz com que ele veja que a amizade é algo tão poderoso como tu estares aqui a falar com uma estrela. Acredita em mim, por favor.
O sono chega, por fim. Debaixo de uns cobertores quentinhos, protegido do mundo, abraça o seu ursinho preferido, oferecido pela avó Emília no dia em que nasceu, já lá vão quase nove anos. E dorme, tranquilamente, a pensar que o planeta é um enorme chupa-chupa e as casas enormes quadrados de chocolate branco, o seu preferido.
São sete da manhã. E o Joãozinho já está a pé. Como sempre, a primeira coisa que faz é lavar a cara. Desce para tomar o pequeno almoço e segue para a escola. Sem nunca parar de pensar na estrelinha e no que tem a fazer.
Quando chega à sala de aula, repara que todos comentam qualquer coisa. Intrigado, decide interferir no burburinho.
– O que se passa, Carlos?
– O Miguel combinou um jogo de futebol e temos todos de ir. Ou vamos, ou ele fica muito irritado. Ah, e vais ficar na baliza!
No pequeno espaço revestido de cartazes relativos às atividades plásticas, o terror é evidente.
– A estrelinha tinha razão!!!
– O que é que disseste?
Num ápice, decide levantar o rabo da cadeira e caminhar em direção ao quadro. Pede silêncio a todos os colegas, e, aproveitando o facto de a professora ainda não ter chegado, realiza a tão desejada ordem da estrelinha.
– Pessoal, tenho uma coisa a pedir-vos. É fácil. Como todos sabem, o Miguel está constantemente a agredir-me. Eu sei que vocês também têm medo dele, mas vamos colocar-nos no lugar dele. Os pais dele já morreram, não tem amigos porque todos dizem que ele é mau, chamam-lhe gordo e mal vestido, mas, se pararmos um pouco para pensar, tem um coração igual ao nosso, merece as mesmas oportunidades que nós, e, sobretudo, merece ser feliz como nós somos, cada um à sua maneira, claro.
O silêncio é absoluto. A respiração é calma, como um rio que corre devagar. E, mais uma vez, a magia acontece. Prossegue.
– Amanhã é sábado, por isso, peço-vos que venham todos a minha casa fazer Éclairs de Limão. Gostava de partilhar a receita com todos vós, além de que era uma especialidade da minha avó Emília.
A surpresa é geral. Mas, aceitável. A pequena Margarida escuta atentamente. E orgulha-se. A coragem do Joãozinho é notória, assim como o seu carinho por ele é cada vez maior.
Maciel, o mais espigado de todos os amiguinhos, e sempre com a mania que é inteligente, faz com que o Miguel saiba de todas as trocas e baldrocas que estão prestes a acontecer. Apesar de todas as ameaças por parte do malvadão de serviço, nada consegue deter a determinação do Joãozinho, que com a ajuda de todos consegue levar a sua avante. A união faz a força. Prevalece acima de todas as maldades. E ainda faz bem à saúde.
É sábado. É primavera. As flores carregam-se de beleza e cor. E não há trabalhos de casa. A cozinha do Joãozinho está coberta de ingredientes. Parece uma fábrica de doces em ponto de ebulição. É oficial que a turma do novo herói da escola está atarefada com a realização da famosa receita da avó Emília. O clima é de festa. Entre risadas e algumas parvoíces próprias da idade, a entre ajuda é visível. A Margarida prefere colocar a água e a manteiga numa panela média. E ri-se, ao mesmo tempo que observa o Maciel deitar o leite creme numa tigela do Mickey Mouse. Por fim, o Carlos diverte-se a cortar os Éclairs ao meio, horizontalmente, ao mesmo tempo que o Joãozinho os recheia com o creme de limão. São servidos mais de quarenta Eclairs de Limão. E parece que há mais um convidado.
– É preciso ter uma grande lata!
Comenta o Maciel, entre dentes.
O Joãozinho apercebe-se do sucedido. É o Miguel que está lá fora a saltar que nem um doido a ver se chega à janela da cozinha. Pede para que todos mantenham a calma.
– Eu vou lá fora. Venho já.
Passados cinco minutos, a imagem é digna de uma fotografia; Joãozinho e Miguel abraçados. Até os Éclairs de Limão suspiram de surpresa. Todos reparam que o Miguel está hesitante. A Dona Aurora, mãe do Joãozinho, aproveita o momento adulto dos seus pequeninos para ir à mercearia que fica a dois minutos a pé, comprar refrigerantes e ligar ao marido que se encontra na pesca. Aguardam instruções da Mãe galinha, e retomam o assunto. Ou melhor, o convidado retoma o assunto.
– Eu sei que não tenho sido um grande amigo, principalmente para o João, mas a verdade é que eu sempre desejei ser uma pessoa melhor, com mais amigos, com mais princípios. Esta vossa união comove-me, e faz-me pensar que se continuar como sou, o mais provável é acabar sozinho e sem ninguém para me apoiar. Com esta vossa atitude percebi que a amizade simboliza o que há de melhor nas pessoas. E nós, como crianças, temos a responsabilidade de ensinar aos adultos que as coisas, quando feitas com amor, funcionam de verdade. Hoje e sempre.
– Mas tu fizeste-nos muito mal! E quando batias no João, era como se nos atingisses também. Mereces ficar sozinho, sim!
A revolta é geral. Se por um lado, o castigo é o destino mais adequado ao Miguel, por outro, o arrependimento também é uma hipótese a considerar. O dono da casa interfere.
– Acalmem-se, por favor. Deixem o Miguel terminar.
O silêncio regressa. E o Miguel decide voltar a tagarelar.
– Eu não vim aqui para ser perdoado. Eu vim aqui para me dar uma lição a mim mesmo. E perceber que a vida sem amizade não faz sentido. E que a maldade é algo que deve estar fora dos nossos sonhos de vida.
E a paz reina novamente. Funcionando como uma equipa, a desculpa é geral. E como nas crianças tudo é vivido de forma intensa, esta nova amizade que agora se forma, promete ser arrebatadora e um exemplo a seguir por todos aqueles que decidam enveredar por caminhos sombrios, cobertos de fantasmas de espadas em punho. Uma amizade não verdadeira é como uma casa que nunca há de ter paz.

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