Menino-soldado

Criado por tdomf_86bf3
menino soldado

Nos belos olhos azuis do menino do Congo, a esperança naufragada procurava, ansiosamente, uma praia. Ele ainda não sabia que uma insaciável sede de lucro e de poder não parava de moer e de reduzir a pó o seu direito de viver e de ser feliz. O ouro e os diamantes, que feriam as mãos dos seus pais, nas minas, transformaram-se em armas para os abater. O menino do Congo sabia, apenas, que já era um soldado, que lhe mataram os pais e que a arma lhe pesava muito no ombro e na alma. Tinha uma irmã, mas não sabia para onde a levaram. Ela tinha treze anos e um bebé nos braços. Num bolso do seu uniforme trazia uma foto dela, junto de si e dos seus pais. Uma foto que um amigo branco lhes tinha tirado, à porta da sua cubata. A mãe recebia, apenas, um dólar por dia no trabalho escravo das minas de ouro. Para receber mais um dólar, tinha de se prostituir, à noite.

Um dia, passou por lá um grupo armado que arrasou o vilarejo. E o sangue dos seus pais misturou-se com o pó da estrada de terra batida. O menino do Congo chorou toda a noite, na tenda para onde foi atirado, já como recruta. No momento em que lhe colocaram, pela primeira vez, uma arma no ombro, o menino-soldado olhou para o céu com os lábios a tremer. E viu que ele estava negro como a sua pele. Negro e sem estrelas. Os seus cabelos crespos estavam húmidos de suor e dos seus olhos grandes e azuis caíam grossas lágrimas. Lembrou-se então da parábola do cavalo que um missionário lhe tinha contado. Sim, sentia-se como aquele cavalo que tinha caído num velho poço abandonado. Para evitar a despesa de tirar o animal de um poço tão profundo, o fazendeiro mandou os empregados cobri-lo de terra. Porém, o animal sacudia-a, energicamente, e ia subindo à medida que ela se acumulava no fundo. E acabou por se libertar daquele cruel pesadelo. Seria ele capaz de tamanha proeza? Tinha medo de não conseguir sair daquele horrível poço. Ah, que falta lhe fazia, naquele momento, uma carícia da sua Mãe! As suas mãos curavam-
-lhe sempre as feridas, por mais calos e dores que elas tivessem.

Era Noite de Natal. O menino do Congo olhou a arma com o rosto parado. Um rosto em que o passado estava preso e que o presente não podia iluminar. Com as pernas a tremer, sentou-se numa caixa cheia de munições.
– É noite de Natal, menino! Anima-te! – disse-lhe, com um sorriso terno, um rebelde mulato que falava português como ele. – Nas ruas das cidades, talvez fosse pior… Aqui dão-te comida, tens água limpa e os mosquitos não te mordem. Não és o primeiro, infelizmente. Há milhares com armas. Até meninas!…
Naquele momento, a criança ergueu a cabeça e o rebelde viu nos seus olhos uma pungente aflição.
– Não tenhas medo, vá… Põe a arma nesse canto. Vem comigo. Como te chamas?
– Benjamim… E tenho onze anos.
O menino – soldado observou-o atentamente, em silêncio. Aquele homem era alto, magro, não tinha olhos desvairados como os outros e sorria. Era um sorriso que lhe vinha da alma. E o seu olhar era tão sereno que ele se sentiu protegido. Teria encontrado um homem bom?
– Podes desabafar, Benjamim. E Deus não tem cataratas, sabes? Ele vê-te muito bem…
– Como podes saber isso? Sou tão pequeno!
– Deus escondeu-se num Menino pobre e pequeno. E, se a primavera cabe dentro do grilo, como alguém disse, também Deus cabe dentro de ti…
– Tens xicuembo? E és mesmo um rebelde?
– Não, mas é segredo. Agora cala-te. Estou a ouvir passos. Eles vêm aí. Vamos sair pelo outro lado da tenda. Vamos escutar o coração de África, os ruídos da noite que hoje são ainda mais belos e misteriosos! É noite de Natal, Benjamim! Vem ver uma estrela que brilha mais do que as outras!
Entretanto, um pequeno grupo de homens embriagados entrou numa tenda, ao lado, com tambores e a cantarem, freneticamente, canções de Natal das suas terras distantes.
– Anda, Benjamim! Dá-me a tua mão. Eles nem nos viram. Ninguém te vai fazer mal.
– Quem és tu? Como te chamas?
– Gabriel… Sou enfermeiro, meu amigo. Trato dos feridos. E eles respeitam-me. Ah, e porque não tiras a mão desse bolso? E porque estás a chorar?
– É só para arrefecer a cara…
– Podes mostrar o que tens aí escondido?
– É a fotografia da minha irmã e dos meus pais. Eles… morreram. Os meus pais morreram…
– Gostava de a ver… – pediu Gabriel, compadecido.
Benjamim olhou à sua volta e, como não viu ninguém dentro da cerca de arame farpado, tirou a foto do bolso. Gabriel acendeu um isqueiro e aproximou o rosto.
– Como se chama a tua irmã? Meu Deus, eu conheço-a! Como se chama ela?
– Vita! – respondeu o menino-soldado, com o coração aos saltos, dentro do peito.
– É ela, sim! Sei onde está. Tem um bebé…Esteve em Lumumbasi e agora está em Kinsahsa, numa comunidade católica que a acolheu. Vou levar-te para junto dela!…
Naquele instante, Benjamim sentiu brilhar dentro dele a estrela que brilhava mais do que as outras.
– E não vou mais carregar aquela arma? Já não vou ver pessoas a morrer? E ninguém me vai dar mais drogas? – perguntou o menino-soldado, chorando de felicidade. No seu rosto, tinha florescido a beleza de quem se sente amado e reaprende a amar.
– Ninguém mais, Benjamim! – respondeu Gabriel, abraçando a criança, com profunda emoção.-
– Olha, eles calaram-se. Devem estar todos a dormir. Vamos sair daqui, muito antes do nascer do sol. Temos de andar uns quilómetros. Depois alguém nos irá buscar…Vão gostar de ti, na comunidade, verás! E sei que eles podem contar contigo. Quem já sofreu muito, pode dar muito.
Na manhã de Natal, faltava uma estrela no acampamento dos rebeldes: Benjamim. Tinha partido com um anjo que andava na Terra.

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