O marmorista

Criado por Narrador
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O gravador de lápides funerárias poisou o cinzel e disse:

— Terminei.

O homem examinou a pedra: as duas datas 1920 e 2003 separadas por um pequeno traço de dois centímetros. Depois abanou a cabeça e disse:

— Não sei como me explicar, mas parece-me muito pouco. Veja, o meu pai teve uma vida cheia e longa. Desejaria que ficasse gravado no mármore de algum modo a sua infância numa família numerosa, o campo rico de verde e de animais, os trabalhos pesados, a satisfação de uma boa colheita, as preocupações pelas secas e pelas inundações… Depois, a guerra, os ferimentos, a fuga de um campo de prisioneiros, o encontro com a minha mãe… Os filhos que nascem, crescem, se casam, os netos que chegam um após o outro… Depois a velhice serena, a doença, certamente, mas também o afecto, o amor, o entusiasmo, as ânsias, as preocupações, as alegria, o amor pela vida…

O gravador escutava com atenção. Em seguida, pegou de novo no cinzel e alongou o traço entre as datas do nascimento e da morte.

Depois, voltou-se para o homem e perguntou:

-Está melhor assim?

A vida de uma pessoa não pode ser um mero traço entre duas datas. Cada dia da nossa vida, mais ou menos longe, deve ser vivido a cada momento com intimidade. Só temos esta vida para viver.

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