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Nos campos sem fim semeados de trigo havia um casebre e nele morava Maria Papoila. Era uma boa moça, amiga de toda a gente, com duas rosetas na cara, vermelhas como duas papoilas.

De manhã à noitinha trabalhava curvada para a terra, alegremente cantava e assim ia passando a sua vida sem história. Até que certo dia lhe bateu à porta um criado real.

— Eras tu quem estava a cantar?

— Era, porquê?

— Ando a correr mundo à procura de alguém que tenha uma voz tão alegre que, ao ouvi-la, todos esqueçam as suas tristezas. Vou levar-te para o palácio do rei, que anda sempre triste e mal-humorado.

Maria Papoila nem podia crer no que ouvia.

Ah, como ia contente, mais vermelha que nunca, com seu vestido de chita e botas de atacadores! Levava chapéu de palha e pelo caminho colhia espigas e malmequeres para formar um ramalhete.

Quando o rei ouviu a sua voz, logo um sorriso lhe perpassou os lábios. Era tão clara, tão quente, tão vibrante de alegria, que as damas e fidalgos se não cansavam de a aplaudir.

Mas logo a rainha lhe deu ordem para mudar de trajo. Trouxeram-lhe um lindo vestido de seda preta, uns sapatos aguçados, de grandes saltos. Prenderam-lhe os cabelos com fitas de veludo.

Maria Papoila viu-se ao espelho, negra como uma viúva, quis dar um passo e sentiu uma terrível dor nos pés. Mandaram-na sentar, pois já as aias vinham pôr-lhe pó de arroz nas faces.

— Estás vermelha demais, pareces mesmo uma saloia. Daqui por diante não podes tornar a andar ao sol.

Maria Papoila cantava, cantava sempre. Uma alegria escaldante parecia correr-lhe no sangue e ter de lhe sair pela boca em flor. Mas os olhos começavam a entristecer.

Sentava-se ao pé do rei e, enquanto cantava, ouvia as suas ordens, os seus projetos, os seus segredos. Ouvia planear as guerras, decretar a prisão dos descontentes, a morte dos revoltados. Ouvia troçar do suor dos camponeses, da dor dos feridos, da angústia dos desamparados, da miséria do povo. E exigir dos pobres dinheiro, mais dinheiro para esbanjar em festas e amontoar nos cofres.

Então a sua voz, que quase se embargava de lágrimas, quase sufocava de raiva, era mais bela do que nunca. Mas perdera a alegria.

Deram-lhe colares de pérolas, brilhantes e safiras, trouxeram-lhe pássaros raros, flores exóticas, cozinharam-lhe requintadas guloseimas. Ofereceram-lhe um manto de pele de tigre, um coche de prata puxado a vinte cavalos para passear nos jardins. O rei ordenou novos impostos para lhe construir um palácio de cristal com teto de ouro. Mandou desviar um rio para lhe fazer um lago.

Mas a sua voz era cada vez mais triste. Quando cantava, toda a dor do mundo chorava através dela. Ninguém podia ouvi-la que lhe não viessem as lágrimas aos olhos.

Até que, numa noite de tempestade, Maria Papoila fugiu. Enfiou o vestido de chita, as botas de atacadores, levou o ramalhete de espigas ressequidas. Correu pela cidade deserta, por becos esconsos, por ruas desconhecidas. Ao nascer do dia, sentiu-se tão cansada que se deixou cair numa pedra. Não trouxera dinheiro. Tinha fome e sede, os pés doridos, a roupa encharcada e colada ao corpo.

Chegara a uma aldeia com casebres de terra amassada, sem janelas, da cor do chão. Um bando de miúdos chapinhava nas poças. Um deles aproximou-se, sorrindo, e estendeu-lhe um naco de pão.

Maria Papoila ergueu os olhos húmidos. E novamente a sua voz brotou, alegre, clara, tão alegre, viçosa, tão contagiante, que todos assomaram às portas com um sorriso nos lábios.

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