Adriana da Silva Felisbino




No tempo em que as plantas falavam, as frutas andavam e as hortaliças tinham opinião própria, os problemas começavam a surgir com as plantas. A flora toda estava revoltada com tanta cobrança. Não entendeu? As hortaliças sofriam muito para serem cultivadas.

O agrião tem o ciclo de 50 dias nas regiões quentes e 70 dias na época fria, suas sementes tinham que ficar encharcadas, quase se afogava em tanta água. As vagens, coitadas, ou eram feitas pelas máquinas nas lavouras comerciais ou precisavam de treliças de bambu, madeira ou tela pra se esticar. Ai! Isso deve doer! O quiabo sofre transtornos de autoestima baixa, ele sabe que quase ninguém gosta dele. Além disso, pode ser semeado com casca de arroz carbonizada e húmus de minhoca. Ninguém merece isso! A rúcula é a mais exigente em água e fertilidade do solo, porém, ela não aguenta mais que uma hora colocam adubo de gado outrora adubo de ave, e nem assim as crianças apreciam seu sabor! Os tomatinhos eram os mais comprados, porém, a pressão era tão grande que ele tinha que nascer em caixotes ou até mesmo em copos plásticos furados no fundo, não tinha espaço nem pra respirar! Enfim, todas elas estavam estressadas com seu modo de preparação para o cultivo, sem contar no agrotóxico que a maioria tinha que aguentar. O pior é que tudo isso tinha que ser feito às pressas, porque os varejões que as vendiam ficavam cobrando os produtores que fossem mais rápidos com o cultivo das hortaliças. Era uma vida muito agitada para as pobres plantinhas!

Com o tempo as hortaliças começaram a se sentir usadas e desvalorizadas pelas pessoas, elas viam seus parentes jogados em latas de lixo, desperdiçadas pelas crianças que não as queriam, algumas ficavam nas prateleiras até murcharem e morrerem porque ninguém levava para casa… até que um dia, elas se reuniram e resolveram dar um basta na situação. O agrião convocou algumas vagens, os quiabos, chegaram alguns tomates com a rúcula e todos tomaram uma decisão super radical: as hortaliças iriam desaparecer. Elas combinaram uma fuga pela Floresta Sem Nome que era um lugar assustador. Nenhum ser humano jamais havia estado lá. Os homens jamais as encontrariam! Elas ficariam por lá para sempre e nunca mais seriam vistas, nem maltratadas e muito menos desprezadas pelas crianças. Negócio feito! E lá se foram todas as hortaliças do mundo, para a sombria Floresta Sem Nome. Agora sim, os humanos iam ver a falta que elas fariam à vida deles!

O caminho não foi nada fácil até chegar lá. Elas eram miúdas, umas tinham que ajudar às outras, tiveram que atravessar o famoso Córrego Melequento, tiveram que passam pelos jacarés do Pântano Selvagem, fugir dos animais que passavam por ali para que não as comessem… Ufa! Foi um sufoco! Mas as hortaliças chegaram lá. Ah! Que maravilha! Elas chegaram junto com o sol, era uma linda manhã de sábado, todas estavam muito mais felizes, viveriam ali para sempre!

Na mesma manhã de sábado, os agricultores chegaram a suas plantações e tomaram um baita susto!

– Meu Deus! Onde estão as hortaliças? Acharam que os animais tinham comido tudo, mas perceberam que não, era inacreditável, elas simplesmente haviam desaparecido! Após dias e dias de busca por todos os arredores das cidades, nada mais podia ser feito. O único jeito era acostumar a viver sem elas. Seria isso possível?

Algumas mães tentavam fazer suas próprias hortas em casa, mas não tinham sucesso. Parecia que elas tinham combinado de nunca mais crescer. E tinham mesmo! Então o problema começou a surgir… as crianças só comiam comida enlatada, frituras, refrigerantes, guloseimas e doces. Com isso, sem comer frutas e verduras, muitas crianças passaram a desenvolver problemas de crescimento e desenvolvimento na infância. Sendo assim, os pais ficavam preocupados com o surgimento de doenças na fase adulta como: hipertensão, diabetes e até câncer. Nossa! As hortaliças estavam mesmo fazendo muita falta para os seres humanos. Muita gente já estava ficando desnutrida, com rosto pálido e desanimada. O que fazer para que as hortaliças voltem?

Enquanto isso, na Floresta Sem Nome, as hortaliças começavam a sentir falta dos cuidados dos seres humanos. A floresta não tinha a terra adequada para adubar cada uma delas como de costume, não tinha ninguém para colocá-las na água, ou no sol, ou protegê-las dos insetos. Com o passar do tempo, elas perceberam que não tinham feito tomado a atitude correta. Fugir daquele jeito não era a melhor alternativa. Decidiram voltar para o convívio com os humanos!

E após longa viagem, atravessar o Pântano Selvagem e passar por tudo aquilo de novo, numa linda manhã de quinta-feira, lá estavam elas, todas unidas, porém fraquinhas. Cada uma voltou para seu devido lugar. Os tomates pularam para seus caixotes, as rúculas foram para seu espaço adequado, as vagens, o quiabo, o agrião, enfim, cada uma tinha seu cantinho. Perceberam que aqueles cuidados eram necessários para que crescessem fortes e saudáveis, e as crianças? As crianças aprenderam a reconhecer a importância que estes alimentos têm na vida delas e de suas famílias. Os hospitais já não estavam mais tão lotados de gente doente, os pais não compravam mais só salgadinho com corante e seus filhos aprenderam a admirar o quanto é bonito e saudável um prato de comida bem colorido e cheio de verduras deliciosas. Até o quiabo saiu de sua depressão e passou a ser mais consumido pelos pequeninos. O mundo passou a ser um lugar mais feliz para se viver!

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