Charles Perrault




Há muito tempo atrás morreu um moleiro que tinha três filhos. Era pobre, mas deixou uma coisa para cada um. O mais velho herdou o moinho, o filho do meio um burro e o mais novo um gato.
O mais velho tornou-se moleiro como o pai, o segundo partiu na garupa do burro à procura de fortuna e o mais novo sentou-se a chorar. “O que faço com um gato?”, lamentava-se. “O que será de mim?”
O gato, vendo-o desesperado, aproximou-se e disse: ” Não te preocupes. Arranja-me uma capa, um chapéu com umas belas plumas e um par de botas novas. Do resto trato eu.”
O rapaz secou as lágrimas e obedeceu.
No dia seguinte, o gato enfiou as botas e correu para o castelo, veloz como o vento, para oferecer um coelho ao rei. “Isto é um presente do meu amo, o marqueês de Carabas!”, disse o gato a sua magestade.
E durante sete dias seguidos, apresentou-se todas as noites ao rei com novos presentes: lebres, perdizes, faisões…
No castelo estavam todos cheios de curiosidade.
“Que homem generoso, este marquês de Carabas!”, comentavam na corte.
Gostaríamos tanto de conhecer o teu patrão”, disse um dia a rainha ao gato.
“O marquês de Carabas terá muita honra em vos convidar para o seu castelo”, responde-lhe o gato.
O dono do gato ficou aflito e suspirou: “Oh, não! Todos ficarão a saber que sou pobre!”
“Não te preocupes e faz o que te digo”, disse o gato. “Amanhã irás tomar um banho ao rio.”
“Mas não sei nadar”, lamentou o rapaz.
“Não faz mal”, respondeu o gato, “confia em mim!”
O gato sabia que o rei e a rainha iam passear na sua carruagem junto ao rio. Esperto como era, mal sentiu os cavalos a aproximarem-se, atirou o patrão à água e gritou: “Socorro! Socorro! O meu patrão, o marquês de Carabas, está a afogar-se!”
O rei ordeneou aos criados que salvassem o marquês. Depois deu-lhe roupas secas e luxuosas e disse que ele e a rainha gostariam muito de visitar o seu castelo. O falso marquês desatou a chorar, pensando que tinha sido descoberto, mas o gato não perdeu tempo a consolá-lo. Tinha-lhe arranjado roupas novas, só faltava encontrar-lhe uma casa.
E, sem hesitar, correu para o castelo do ogre.
“Diz-me uma coisa, ogre, é verdade que estás a perder poderes?”, perguntou o gato com muita astúcia.
“Diz-se por aí que consegues transformar-te em animais enormes, mas em animais pequenininhos, não.”
“Já vais ver!”, respondeu o ogre ofendido. Num instante, transformou-se num pequeno ratinho, que o gato engoliu de uma só vez! Depois apoderou-se do castelo do ogre, instalou-se com o seu patrão e convidou o rei e a rainha para jantar.
Os reis aceitaram o convite e levaram consigo a sua filha, uma bela princesa por quem o filho do moleiro logo se apaixonou.
O rei e a rainha organizaram um baile maravilhoso para festejar o casamento.
A partir de então, graças ao gato das botas, todos viveram felizes para sempre.

Charles Perrault nasceu a 12 de Janeiro de 1628, na capital francesa, Paris. Aluno dedicado, formou-se em direito, no ano de 1651 e foi um dos criadores da Academia Francesa de Ciências. Em 1671, foi convidado para participar na Academia Francesa de Letras. Perrault ficou conhecido após publicar histórias populares e com uma linguagem simples, que faziam parte do folclore europeu.

O seu livro mais famoso é o “Contos da Mãe Gansa”, que foi publicado em 1697. Nele havia os contos “A gata borralheira”, “O gato de botas”, “Chapéuzinho vermelho”, “Barba Azul”. O livro chama a atenção pelo fato de os personagens principais, apesar de pequenos e indefesos, vencerem o mal usando a inteligência. É notável o confronto entre o bom e o mau, os bonitos e feios, os fortes e os fracos. Foi com esta obra que Perrault inaugurou o género conhecido por “Contos de Fadas”.

Perrault, membro da alta burguesia, escrevia de forma simples e fluente, as suas histórias eram adaptações de outras histórias, mas que continham discretamente conceitos morais. Quase 200 anos depois, as suas histórias seriam re-escritas por dois irmãos, tornando-se conhecidas mundialmente. Perrault faleceu em maio de 1703

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