Fábulas De La Fontaine




Enquanto a sede uma pomba
Vê por um triste desastre
Cair n’água uma formiga.
Naquele vasto oceano
A pobre luta, e braceja,
E vir à margem da fonte
Inutilmente deseja.
A pomba, por ter dó dela,
N’água uma ervinha lhe lança;
Neste vasto promontório
A triste salvar-se alcança.
Na terra a põe uma aragem;
E livre do precipício,
Acha logo ocasião
De pagar o benefício.
Que vê atrás de um valado,
Já fazendo à pomba festa,
Um descalço caçador,
Que dura farta lhe assesta.
Supondo-a já na panela,
Diz: “Hei de te hoje cear!”
Mas isto a formiga astuta
Lhe morde num calcanhar.
Sucumbe à dor, torce o corpo,
Erra o tiro, a pomba foge;
Diz-lhe a formiga: “Coitado!
Foi-se embora a ceia de hoje!”
De boca aberta ficando,
Conhece pois o pobre glutão
Que só devemos contar
Com o que temos na mão.
E posto enfim que haja ingratos,
Notar devemos também,
Que as mais das vezes no mundo
Não se perde o fazer bem.

Jean La Fontaine nasceu em uma pequena cidade da região de Champagne, chamada Chateau-Thierry, durante a Idade Moderna. Filho de um inspetor de águas e florestas, estudou teologia em Paris. Por gostar muito de literatura, Jean escreveu contos, poemas e fábulas.

Ficou conhecido após publicar um livro chamado “Fábulas Escolhidas”, em 1668. No livro, havia 124 fábulas, eram histórias de animais que, sempre ao final, continha um lição de moral. La Fontaine resgatou fábulas do grego Esopo e do romano Fedro, e também criou suas próprias, as mais conhecidas são “A formiga e a cigarra” e “A raposa e as uvas”.

Em 1654, entrou para o mundo da literatura. Até 1694, foram lançadas mais 11 coletâneas. No prefácio da primeira coletânea, deixou uma mensagem para os seus leitores: “ Sirvo-me de animais para instruir os homens”. Em 1695, La Fontaine morreu e foi considerado o pai da fábula moderna. Até hoje os seus ensinamentos são passados.

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